segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O pós-referendo: mais dúvidas que certezas...

Dos 8 832 628 de portugueses inscritos nos cadernos eleitorais com capacidade para se pronunciarem sobre a questão da "despenalização do aborto até às 10 semanas por opção da mulher em estabelecimento legalmente autorizado" perfizeram o total de 2 238 053 indivíduos aqueles que deram concordância à alteração da lei em vigor. Ou seja, foram pouco mais de 25% os portugueses com mais de 18 anos que deram o seu aval à mudança legislativa a introduzir no Código Penal.
Não coloco em dúvida da vitória do SIM, mas discordo totalmente daquilo a que José Sócrates apelidou de consenso social. Não se verificou nenhum consenso!!! Aliás, a haver vitória clara foi a dos mais de quatro milhões de eleitores que se abstiveram...
Mas, sabendo-se que a lei sobre esta matéria vai ser alterada, convém não esquecermos que as dúvidas e interrogações são bem mais profundas do que as certezas. E, nem os mais acérrimos defensores do SIM conseguem responder às questões que agora nos são colocadas:
1. As investigações e os julgamentos deixarão de acontecer para os abortos realizados com 10 semanas e um dia de gravidez?
3. De onde virão os recursos financeiros para pagar os abortos a realizar, seja no sistema público, seja no sistema privado?
4. Não será legítimo que o dinheiro gasto por cada aborto realizado seja igual ao subsídio a atribuir a cada mulher que decida prosseguir com a sua gravidez até ao fim?
5. Não estaremos perante uma lei que discrimina o pai, visto que este não tem na lei uma alínea que lhe permita impedir a decisão da mãe de aniquilar a vida do seu filho?
6. Estaremos perante um Sistema Nacional de Saúde capaz de dar provimento aos milhares de abortos que lhe vão chegar "ás mãos" ou iremos ter um Estado que subsidia os privados para realizar abortos, sabendo nós que estes últimos têm como objectivo final a maximização do lucro?
7. Finalmente, a maior dúvida de todas, os defensores do NÃO têm ou não legitimidade para exigir a realização de mais um referendo daqui a nove anos, visto que este foi tão vinculativo (ou seja não foi) como o realizado há nove anos atrás? Teremos agora sempre um referendo sobre o aborto por cada década que passe?
Convém não esquecer que apenas 25% dos portugueses com capacidade para votar apoiaram a mudança da lei, pelo que há 75% que, directa ou indirectamente, discordam da liberalização do aborto... E, não há dúvidas que temos um país "partido" ao meio: um Norte e ilhas conservadores e defensores acérrimos da vida, e um Sul que nas palavras de Sócrates é modernista e que vai atrás daquilo que vem do resto da Europa e que, infelizmente, menos convinha "copiar"...

13 comentários:

daniel tecelão disse...

O NÃO,em rescaldo,decidiu elencar uma série de preocupações e parece-me razoável.
Foi uma minoria que decidiu alterar a lei,tambem foi uma minoria que no anterior referendo decidiu não alterar.
Deverá ser os recursos do SNS a suportarem os custos dos abortos,assim sempre suportou os custos dos danos dos abortos clandestinos.
Mesmo que se tenha de recorrer a privados para executarem os abortos em carteira,as mulheres de poucos recursos já não serão empurrdas para abortadeiras de vão de escada.
A decisão de abortar deverá ser sempre da mulher,o putativo pai,muitas das vezes só fazem parte do problema.
As outras minuências,comparado com o que as mulheres ganharam,não passam disso mesmo,minuências!!!

Pedro disse...

Chamadas de atenção sobre as palavras menos acertadas do caro Tecelão:
Diz o Tecelão que "se foi uma minoria que decidiu alterar a lei, também foi uma minoria que no anterior referendo decidiu não alterar". Erro crasso: no referendo de 1998 votava-se a mudança da lei e não a continuidade da então existente. Ora, nesse ano como agora, revelaram-se uma minoria aqueles que defenderam a liberalização do aborto. A pergunta teria de ser "concorda com a defesa da vida intra-uterina?" para que o Tecelão pudesse comparar os que votaram SIM e os outros...
2. Diz o Tecelão que "as mulheres de poucos recursos já não serão empurradas para abortadeiras de vão de escada", esquecendo-se que muitas delas optam pelo aborto clandestino por vergonha e não devido a questões financeiras.
3. Defende o Tecelão que "a decisão de abortar deverá ser sempre da mulher, dado que o putativo pai, muitas das vezes só fazem parte do problema". Ora, não é por causa de alguns ou muitos pais não se interessarem pela questão que os poucos pais que se preocupam com a vida do seu filho não devem ser chamados a intervir na resolução do problema...
Sejamos claros nos argumentos. O debate não acaba com os resultados do referendo!!!

daniel tecelão disse...

Caro Pedro,argumentos de recurso,o trocadilho entre os dois referendos,não cola,você sabe bem que tanto faz dar na cabeça,como na cabeça dar!
A vergonha de abortar derivava em parte do facto de ser crime,acho que as mulheres a partir de agora não necessitam de se esconderem para abortar nem porem em risco a sua vida.
Para o bem e para o mal,a decisão de abortar,só à mulher diz respeito,ninguem tem o direito de a obrigar ou impedir de fazê-lo!!!

Pedro disse...

Tecelão, ninguém tem o direito de impedir que as mulheres possam abortar, por sua única vontade discricionária???
É a sua opinião!!! Não é por 25% dos portugueses com mais de 18 anos terem a mesma opinião do Tecelão que mudarei a minha opinião...
Por alguma razão existem os Direitos Humanos!!!

daniel tecelão disse...

Quando falamos de aborto,estamos a falar de direitos humanos,o direito da mulher querer ou não ter um filho!!!

Pedro disse...

Será o direito à vida menos importante que o direito de não dar continuidade a uma gravidez? Para mim não!!!

Quintanilha disse...

Será que todos os outros países onde o aborto não é crime, é que estão errados?
Tenham juízo!

Anónimo disse...

Esta melga enjoa...

Willespie disse...

A falácia está em pensar que defendemos o direito à vida, penalizando a mulher que aborta.

Quintanilha disse...

Muita gente tem opinado sobre a fraca participação dos portugueses no referendo sobre a despenalização da IVG. O Presidente da República também o fez.

Ora vamos lá analizar a coisa:
- Dos 8.835.237 eleitores inscritos, votaram em Cavaco Silva 2.746.689 cidadãos.
- Dos 8.832.628 eleitores inscritos, votaram no "Sim" 2.238.053 cidadãos.

Urge questionar:
- Será que a vitória do "Sim" foi assim tão pequena como muitos nos querem fazer crer?
- Será que a vitória de "Cavaco Silva" foi assim tão grande como muitos nos querem fazer crer?

E se eu vos disser que Cavaco Silva obteve apenas mais 1,23% de votos do que o "Sim" !?

Conclusão: - Tão legítima foi a vitória do "Sim" como a vitória de Cavaco Silva, só que, cada um vê as coisas do lado que melhor lhe convêm, sempre assim foi e sempre assim será. Não atirem é serradura para os olhos do pessoal!

Pedro disse...

Quintanilha, a diferença é que nas eleições presidenciais, as opções de voto eram mais de cinco (logo as percentagens dispersaram-se) e neste referendo as opções eram apenas duas: Sim ou Não...

Quintanilha disse...

Eu sei que são casos diferentes, mas, contra factos não há argumentos. Chamem-lhe o que quiserem!
Votaram em Cavaco Silva 2.746.689 cidadãos e votaram no "Sim" 2.238.053 cidadãos. A diferença é de 1,23%

Os números não enganam!

Unknown disse...

Então e quando a abstenção "ganha" nas eleições para Presidente da Républica, Assembleia, Parlamento Europeu, etc. também ficam os lugares por ocupar até às próximas eleições?!?!