domingo, abril 30, 2006

Classe docente: o bode expiatório de sempre...

Depois do Tribunal de Contas da União Europeia ter vindo criticar Portugal por não ter uma estratégia coordenada para combater o abandono escolar precoce e por não apostar na prevenção (com acções para menores de 15 anos), avisando já que é utópico pensar que o nosso país consiga reduzir para metade, até 2010, a percentagem dos jovens que abandonam o sistema escolar precocemente, eis que a Ministra da Educação vem à praça pública apontar o dedo aos salários dos professores! Afirma a Ministra que o peso salarial do seu ministério corresponde a mais de metade do total das remunerações da Função Pública, pelo que a solução passa por racionalizar os recursos humanos.
Ora, não pondo em causa os números apresentados pela Ministra não teria sido de melhor tom ter, pelo menos, uma palavra para a chamada de atenção vinda da UE? É que a solução para aumentar o sucesso escolar dos nossos alunos não passa, certamente, pelo corte desenfreado nos recursos humanos ou pela banalização das passagens administrativas de ano.
Concordo com a ideia de que temos docentes a mais no sistema. O problema está, em parte, no facto de muitos professores estarem nas nossas escolas com horários de pouco mais de dez horas devido às reduções contempladas pela lei, isto sem contar com aqueles que estão com horário zero. Ora, se os salários no ensino fossem em função da produtividade demonstrada talvez com metade dos professores que temos o sucesso fosse maior...
Mais do que cortar cegamente no número de professores a contratar deveria-se, isso sim, aumentar a exigência na profissão docente, com professores bem remunerados, mas em função da sua produtividade. É que o mérito, o esforço e a dedicação não devem ser factores a ignorar...
É curioso que os sindicatos não defendem esta perspectiva do mérito quando falam da política salarial. Nem no dia do trabalhador... Porque será?

25 comentários:

IsaMar disse...
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daniel tecelão disse...

Ainda á dias fiquei indignada.
Ou;Ainda há dias fiquei indignada?!?!

Anónimo disse...

Dizes...que se os salários no ensino fossem em função da produtividade demonstrada....mas onde? Mostrar a quem?...Querem que a Direcção das escolas é que nos avaliem...Não concordo! Porque a maior parte dos Directores não assistem às nossas aulas...e até muitos podem não ir com a nossa cara...
Como podemos ter sucesso escolar..e condições psicológicas?
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Isamar
Faz um favor aos teus alunos, ao País e ao Mundo, mete baixa, reforma-te, desemprega-te, faz o que te der na gana, mas por favor não conspurques ainda mais a Escola (em que nunca deverias ter entrado) e a Classe a que nunca deverias ter tido acesso.

Anónimo disse...

Peço desculpa ao dono do blog pela forma (que não o conteúdo) do meu comentário anterior. Mas há alturas em que nem um santo (o que não será o meu caso certamente) aguenta mais o discurso da irresponsabilidade permanente.
A sua compreensão pois...

IsaMar disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Rui disse...

Neste nosso país cada vez as decisões são tomadas em função do ruído que provocam, do impacto mediático e da estatistica mais crua. A eficácia, a eficiência e o resultado a medio e longo prazo não parecem contar enquanto critérios de escolha para atingir o desenvolvimento real.
Assim, existem cada vez mais vozes por aí, a reclamar um novo 25 de Abril. Não estarei totalmente de acordo mas desde já prometo um 25 de Abril para o próximo ano. Desejo apenas que seja em tudo melhor do que este... mas pelo rumo parece-me seriamente in-provavel.


Um abraço para toda a família.
Rui

henrique santos disse...

Caro Pedro
você defende uma avaliação por mérito dos docentes. No seu outro blog pedi-lhe que desenvolvesse a ideia. A minha intenção era que, com a clarificação das suas ideias eu pudesse posteriormente reconsiderar as suas afirmações generalistas sobre avaliação meritocrática dos professores e poder discuti-las. É que só clarificando no concreto em que consistem os conceitos gerais é que vemos as contradições que eles encerram.

AnaCristina disse...

Aposto que separando o trigo do joio as coisas iam ao lugar...

Mas aqui vai um aviso à navegação:
este ano lecciono a turmas que foram de um colega incompetente e o que é facto é que toda a gente passou com 5 e eu já dou mais de 50% de negativas...

Se calhar à Milé ate dá jeito os incompetentes... baixa os níveis de insucesso porque correm tudo à positiva da boa!!

Pedro disse...

Caro Henrique, o seu desafio é interessante, mas certamente que este espaço será curto para desenvolver de forma mais concreta todos os contornos da minha proposta.
Aqui deixo algumas pistas:
- discordo que um professor do ensino secundário que lecciona 12 horas semanais receba quase o dobro que um colega seu que lecciona 2o horas semanais apenas porque este tem menos anos de serviço;
- não se deve subir na carreira apenas porque se fazem 4 créditos em acções de formação, muitas vezes de qualidade duvidosa;
- porque não ter em conta a progressão das turmas em termos de sucesso escolar ou os resultados dos alunos nos exames nacionais na produtividade e na qualidade do trabalho docente?
Tanto haveria a debater nesta matéria...

henrique santos disse...

De facto muito haveria a debater.
Recorrentemente quando falámos de avaliação de profs ouvimos: "é preciso separar o trigo do joio", "só tem medo de ser avaliado quem...", "tanto ganha quem trabalha mal como bem", etc. Penso que é fácil de dizer isto mas chegar a um modelo de professores que seja "Eficaz" e "Justo" é difícil e não se compadece de afirmações generalistas, de propostas pontuais ou mesmo, como penso, de prescindir da participação dos próprios profissionais que neste caso são os professores.
Acho que é preciso introduzir melhorias no actual modelo de professores. Primeiro é preciso saber para quê? Penso que a grande finalidade da avaliação dos professores é a melhoria do ensino, numa perspectiva de desenvolvimento profissional. Há outras perspectivas. Penso que a actual Ministra avançará para uma avaliação do desempenho meritocrática cujo grande objectivo é o de estrangular a progressão na carreira e cujos instrumentos estarão ao serviço desse desígnio. A competição entre professores, - à custa duma perspectiva cooperativa da profissão, - irá prevalecer, o malestar nas escolas irá aumentar, o trabalho com os alunos irá ressentir-se disso e o tipo de pedagogia também será "normalizada" no pior sentido. Avaliar os professores em função dos resultados obtidos pelos seus alunos, parece-me ser avançar por um campo minado.
É evidente que penso, volto a dizê-lo, ser necessário melhorar a avaliação do desempenho. Deveria haver uma cultura de avaliação no sentido de se tentar saber, construtivamente, o que está mal ou menos bem, para poder melhorar. Deveria criar-se essa cultura a todos os níveis, tanto a nível individual como principalmente a nível colectivo, nos vários órgãos e estruturas que existem na escola. Deve haver avaliação da escola e de todas as suas estruturas, com carácter contínuo. Os professores devem discutir os seus sucessos e insucessos de forma aberta, pedindo ajuda até, caso achem necessário. Os relatórios (que os professores actualmente elaboram, na mudança de escalão), deveriam decorrer com naturalidade das actividades feitas ou participadas pelo professor. Assim, antes da comissão do Conselho Pedagógico que lê e avalia esse relatório, este deveria ser discutido nos departamentos, para que os colegas tenham conhecimento e construtivamente possam debater aspectos importantes. Mas estas alterações que aponto só seriam possíveis numa avaliação cooperativa, pois quem é o colega que se vai abrir, ou pedir ajuda, se sabe que em vez dessa ajuda para superar dificuldades vai ter implicações negativas.
Outra questão é a de colegas que não cumprem os seus deveres profissionais. Para esses, devidamente identificados e, através de factos comprovados (e com oportunidade de se defenderem) a escola deverá agir punitivamente no caso em que os comportamentos não se corrijam.
Um professor que se preze tenta ser sempre melhor, ensinar melhor, fazer evoluir os seus alunos. Não é nem deve ser para ganhar melhor ou ter uma boa avaliação que o professor deve trabalhar. A mim, faz-me muita impressão, ligar a avaliação dos professores e a progressão na carreira para ganhar mais. É uma ligação inquinada na minha opinião. Se enveredarmos por aí, a corrupção interior apoderar-se-á de nós. Entraremos no faz de conta, trabalharemos para o espectáculo, inventaremos estratégias cujos fins justificarão todos os meios.
Também discordo que o leque salarial entre o início e o fim da carreira seja tão grande. Os grandes saltos são nos últimos escalões o que distorce a carreira. Mas volto a dizer que não gosto de ligar uma coisa à outra, excepto no caso de excepções a punir.
Muito fica para dizer noutra oportunidade.

Pedro disse...

Caro Henrique, agradeço a sua disponibilidade para o debate sério e construtivo.
Concordo, na generalidade, consigo. Apenas não percebo o que quer dizer quando diz: "faz muita impressão ligar a avaliação dos professores e a progressão na carreira para ganhar mais". Ganhar o quê? Dinheiro?
Penso que para haver sucesso escolar deve ser valorizado o bom desempenho, ou seja, serem discriminados de forma positiva aqueles docentes que, tendo uma turma diagnosticada como problemática conseguem ter sucesso escolar, do mesmo modo que um professor que tem sucesso na sua disciplina e depois vê os alunos chegarem aos exames e terem notas vergonhosas, esse docente deve ser penalizado...
Aos poucos o debate vai-se fazendo...

henrique santos disse...

Quando falo em ganhar mais refiro-me de facto a ganhar mais dinheiro. A gratificação de um professor, penso que deve ser fruto de ver os alunos a desenvolverem-se nos vários aspectos da sua personalidade, incluindo nos conhecimentos, mas não só. (Não esquecendo que os resultados que o aluno obtém, dependem de muitas variáveis além das manejadas pelos professores.) É fruto também de ver o reconhecimento que os alunos lhe prestam por verem esse esforço desenvolvido. Obtém-se também através do reconhecimento dos vários membros da comunidade escolar, dos pares, dos órgãos da escola.
Não excluo, como já referi, a penalização de quem não quer cumprir os seus deveres profissionais, mas coloco em primeiro lugar a preocupação construtiva em melhorar processos, competências e capacidades dos professores individualmente considerados e também dos colectivos em que estão integrados. É necessário que os grupos e os departamentos de facto funcionem nesta perspectiva. a Ana Cristina queixava-se da incompetência do colega que a tinha antecedido. Que fazer nesta situação? Esse era um colega da escola ou esteve lá de passagem? Os critérios de exigência a ter com os alunos foram devidamente discutidos em grupo e regularmente avaliados? Que fazer quando se chega à conclusão que um colega não está a trabalhar bem? Porque é que esse trabalho não é satisfatório? Será que o colega precisa de ajuda ou é um individuo que simplesmente não quer trabalhar? Penalizar alguém que precisa simplesmente de ajuda não me parece que sirva para melhorar as competências do colega. A organização escolar tem de se responsabilizar por estas situações, apresentando soluções adequadas. Por exemplo, para colegas que por razões independentes da sua vontade, já não conseguem ter uma relação pedagógica eficaz com os seus alunos, a escola deveria ter possibilidades de acção. Quem não conhece nas escolas onde lecciona, colegas que, por razões de saúde, não conseguem aguentar um horário normal, ou mesmo funções de docência? A escola e a organização deveriam ter possibilidades de resolver a situação, para bem dos alunos, mas também não penalizando um colega que nessas circunstâncias não o merece.
Penso que os professores devem ganhar um vencimento condigno o seu estatuto e com as suas necessidades, entre as quais realço a de investir na sua auto-formação pessoal e cultural. Como já disse não concordo com leques salariais tão largos ou distorcidos como o que existe. Penso também que esta profissão não é de facto aquela que deva escolher alguém que queira ficar rico. O reconhecimento dos professores, e noutros tempos ainda mais do que agora, sempre esteve muito mais no reconhecimento social ou na auto-satisfação obtida do que no dinheiro obtido através dela. Não que despreze esta questão, bem pelo contrário, pois penso que esta profissão deveria ser uma das mais bem pagas na sociedade. Agora choca-me por exemplo, ver a nossa profissão e os professores em geral, serem selvaticamente avaliados, reprovados e denegridos em praça pública, por Ministros secundados de outros fazedores de opinião e aplaudidos pelo "povo".
E choca-me principalmente em perscrutar que este frenesim mediático sobre os professores serve um exclusivo desígnio de tentar poupar ao máximo com o dinheiro que se paga a estes profissionais, utilizando para isso todas as medidas e todos os meios mediáticos e de poder ao seu alcance.

É curioso disse...

Sabe que o tempo de uma aula na Grécia é de 20 minutos seguido de um intervalo de 5’.
Sabe que estamos predispostos para aprender durante um período máximo de 25 minutos. Então porque temos horários de 90 minutos? Será que a estupidez se manterá por quanto tempo? Não vejo jeitos de alteração já que o (mistério) da educação não prima pela inteligência.

Anónimo disse...

Avaliar os professores em função dos resultados obtidos pelos seus alunos, parece-me ser avançar por um campo minado.
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Acho giro, até porque é revelador e explica o porquê do estado do sítio.
Avaliar uma fábrica pela qualidade dos produtos que fabrica? Nem pensar.
Avaliar um advogado pelas causas ganhas? Devem mas é estar a brincar.
Avaliar um médico pela quantidade de diagnósticos certos e eficácia do consequente tratamento? Não queriam mais nada?
Avaliar um construtor pela qualidade da obra? Era o que faltava.
Avaliar um jardineiro pelo estado cuidado em que tem o jardim? Ora, as ervas daninhas também têm direito à vida.
Avaliar o tal colega que só cincos? Avaliem mas é os colegas que dão mais de 50% de negativas.

Por outro lado, e avaliar uma ministra demagógica e populista? Isso sim, isso já é falar (dizem os que não querem avaliações externas, os henriques das eses)

Mas que classe é esta (nem todos,diga-se em abono da verdade)que se recusa a prestar contas a quem que seja, que não seja dos seus?

Pedro disse...

O debate parece estar aceso. Resumindo, existem dois paradigmas antagónicos: um que defende a meritocracia e a avaliação independente, rigorosa e exigente de todos os intervenientes no processo educativo e um outro paradigma que postula a crença de que todos os docentes se esforçam no seu melhor e que quando não atingem resultados satisfatórios tudo se deve a problemas externos à sua vontade.
Ora, eu estou do lado daqueles que defendem uma escola exigente e rigorosa para todos: alunos, professores, directores e pais...
Custe o que custar!

Anónimo disse...

És um bocag«dito redutor...propositadamente, não???
´Da minha leitura as posiçºoes não correspondem ao resumo: não te interessa esta opinião (que eu subscrevo): "Agora choca-me por exemplo, ver a nossa profissão e os professores em geral, serem selvaticamente avaliados, reprovados e denegridos em praça pública, por Ministros secundados de outros fazedores de opinião e aplaudidos pelo "povo"." Mas também subscrevo que outras classes ou grupos profissionais o sejam, a começar pela avaliação e responsabilização dos nossos governantes. Mas assim a pose não fica tão bem, não é???

henrique santos disse...

Caro Pedro
penso que não deve pôr as questões do modo como as colocou. Presume que a forma como eu vejo a avaliação dos professores não é rigorosa nem exigente. Eu acho que, pelo contrário, o modo de avaliar que eu proponho é bem exigente e rigoroso, tanto para o professor como para as estruturas de que ele faz parte. A forma de avaliação de professores que apresentei recolhe elementos da avaliação de tipo formativo. Realço também a importância desta avaliação de professores se fazer com carácter contínuo. Pergunto: acha correcto deixar-se um professor cometer erros ao longo de três anos (duração de um escalão) e ao fim desse período "elaborar" a sua menção avaliativa negativa sem que ao longo desse período tenha sido objecto de nenhuma apreciação ou correcção.
Quanto à questão da independência penso que o Pedro acha que o Professor deve ser colocado à parte do processo da sua apreciação? Será isso? Até agora eu fui avançando com alguns elementos que caracterizariam, na prática, um modelo de avaliação de professores adequado. Gostava de ver o seu modelo.
Caro Anónimo
em primeiro lugar eu chamo-me Henrique mas não sou de nenhuma ESE, nem lá tirei o curso. Não alcancei o seu raciocínio.
Quando me referi que o campo estaria minado ao avaliar os professores pelos resultados dos seus alunos, queria dizer simplesmente que: a quantidade de variáveis com que o professor depara entre o seu ensino e os resultados finais dos alunos é enorme. O nível de partida dos alunos, as características das turmas, os meios de que dispõe, etc, levam a que os professores (e os alunos) estejam em condições muito diferentes entre si. Mesmo dentro da mesma escola isto pode acontecer. Por isso acho que não será difícil entender que é campo minado ir por aí, isto é, fazer depender a avaliação do professor dos resultados dos alunos. Não digo no entanto que não se deva ter em conta para a avaliação dos professores ou de uma escola os resultados dos seus alunos. É um aspecto importante entre outros e que deve ser devidamente relativizado.
Para contrariar o meu ponto de vista o meu caro optou por dar exemplos de outras profissões ou situações que considero bastante interessantes. Vejamos:
"Avaliar uma fábrica pela qualidade dos produtos que fabrica?"
Há uma diferença substancial entre alunos e produtos de fábrica. A avaliação de uns e outros é também bem diferente. Muito mais simples na primeira. Interessante é também a comparação a outro nível. Óptimos trabalhadores dessa fábrica poderiam trabalhar mal e produzir menor qualidade ou quantidade de produtos por causa de deficiente organização do trabalho. Responsabilidade que não era deles...
"Avaliar um advogado pelas causas ganhas?"
É muito interessante este exemplo. Um advogado pode ser óptimo e perder muitas causas só por defender quem à partida está perto da condenação.
Gostaria também de conhecer em concreto qual o modelo de avaliação que o caro anónimo gostaria de ver aplicado.
Quanto ao seu último comentário em que faz uma citação minha de um texto que coloquei num blog, não o percebi. Se fizer o favor de me explicar melhor agradeço.

Anónimo disse...

...a quantidade de variáveis com que o professor depara entre o seu ensino e os resultados finais dos alunos é enorme. O nível de partida dos alunos, as características das turmas, os meios de que dispõe, etc, levam a que os professores (e os alunos) estejam em condições muito diferentes entre si. Mesmo dentro da mesma escola isto pode acontecer.
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Que seja verdade um ano. Que ainda possa ser verdade mais um ano. Mas sempre? Ou quase sempre?
Num País em que a culpa sempre morreu solteira, não adinta de facto discutir certos temas. Há-de haver sempre mais uma desculpa para tirar da cartola.

henrique santos disse...

Caro anónimo
Estou de acordo com o que disse. De facto, com poucas excepções, se os resultados dos alunos de um professor são sempre maus, repetidamente, isso indicia ou graves dificuldades ou um mau trabalho dum professor que não cumpre os seus deveres. Principalmente se na mesma escola isso não acontece com os outros. Da forma como fala, o meu caro mostra que conhece o sistema por dentro. Ou é professor ou já foi. Sabe que os outros professores, quando a estabilidade de um quadro é o caso, começam a conhecer um professor pelas suas características, designadamente o seu nivel de "exigência" relativamente aos alunos. Há aqueles que dão percentagens muito altas de negativas às suas turmas e outros o inverso. Também aqui seria importante saber o que é a exigência daquele professor: exige acima do nível "esperável" dos seus alunos? O seu ensino, as condições que proporciona a que os seus alunos aprendam é adequado ao que exige? Exige muito pouco e por isso os alunos, sem fazer esforço algum, conseguem atingir esse nível?
O grupo a que o professor pertence define, acerta, discute e reacerta os seus níveis de exigência ou não?
Tudo isto são questões para mim importantes.
Uma questão que talvez esteja a trazer algum ruído a este nosso debate é que eu estou a centrar-me mais num processo de avaliação que acompanha ou deveria acompanhar o professor no tempo enquanto o meu caro e o Pedro parecem-me centrar-se no processo de classificação do professor. Quanto a este processo eu penso o seguinte: a classificaçao é o corolário do processo de avaliação dela decorrendo. Assim, depois de ir sendo feita a avaliação do professor ao longo do tempo, em certo momento, por exemplo 3 anos, proceder-se-ia à classificação do professor. Os dados que foram sendo obtidos no processo de avaliação contínua ao longo dos 3 anos seriam tidos em conta. As menções a atribuir seriam em número de 3. Bom para todos aqueles que cumpriram os seus deveres profissionais. (Aqui vejo a necessidade de definir melhor os critérios de avaliação, pois sem eles será dificil proceder a uma avaliação. A questão dos resultados dos alunos poderia e deveria ser uma entre outras). As outras duas menções seriam: o Muito Bom, para aqueles que se distinguissem pela positiva. (Aqui penso que não deveria ser só o professor respectivo a propor-se, mas também outros órgãos da escola poderiam propor certos professores para esta menção. Os melhores professores que conheço não me parece que se sintam "confortáveis" em se propor à distinção, daí este recurso). A outra menção seria o Não Satisfaz, sendo que esta situação deveria ser discutida, e determinada a causa de tal situação: professor está em dificuldade ou é um professor não cumpridor. Para cada um deveriam ser: elaborado um plano de recuperação ou simplesmente, no caso dos segundos, deveriam ser punidos. Que consequências desta classificação? No caso do Bom, progressão normal na carreira. No caso do Muito Bom, progressão mais acelerada: 2 anos por exemplo. No caso do Não satisfaz por incumprimento de deveres, atraso na progressão e sujeição ou a processo disciplinar e acompanhamento. No caso dos professores cujo não satisfaz deriva de dificuldades, os professores deveriam ser acompanhados, ajudados e, no caso de as dificuldades se manterem, para não prejudicarem os alunos, deveriam ser encaminhados para funções dentro da escola compatíveis com as suas capacidades.

Pedro disse...

Caro Henrique, o debate está interessante.
Há uns tempos atrás deixei no meu outro blogue algumas pistas de como a avaliação de desempenho dos professores deveria funcionar. Destaco apenas alguns aspectos, por forma a não tornar este debate demasiado exaustivo:
1. Avaliação da qualidade e rigor científico demonstrados pelo docente na realização das suas fichas de trabalho e fichas de avaliação;
2. Avaliação dos instrumentos e recursos de trabalho elaborados pelos próprios professores (acetatos, diapositivos em Power-point e outros);
3. Registo da média dos níveis de avaliação e sua evolução atribuídos aos alunos em cada três anos;
4. Avaliação do cumprimento dos programas curriculares e das planificaçãos anuais.
Quanto à entidade que faria essa avaliação, defendo a intervenção da Inspecção Geral da Educação, da Ordem de Professores (mas para tal seria necessário que esta última entidade fosse criada!) e da Associação de Professores da disciplina em causa. A avaliação nunca deveria passar apenas pelos Conselhos Executivos ou Conselhos Pedagógicos, por forma a serem entidades exteriores à escola a tomarem conta desse processo e, portanto, imunes a pressões de qualquer tipo.
Espero tê-lo elucidado da melhor maneira.

henrique santos disse...

Caro Pedro
o seu último comentário, levanta a questão dos participantes no processo de avaliação, além dos "conteúdos" da avaliação. Isso faz-me pensar num aspecto que é importante quando se trata de avaliação de professores: um sistema "oneroso" em meios humanos, além de ser inviável, simultâneamente, parece-me não atingir o objectivo que a avaliação dos professores deve pretender atingir.
E essa não é uma questão despicienda pois não? De facto eu dou um valor muito grande à participação do professor, à auto-avaliação, à participação das diversas estruturas dentro de uma escola, aos processos de reflexão individual e colectiva. O trabalho de um professor não está dissociado da organização de que faz parte, daí a necessidade de o enquadrar devidamente.
Com esses processos, que realço, actualmente não se fazem de uma forma generalizada, a avaliação do professor no seio da avaliação da escola, conseguiria a "baixo custo" e construtivamente, melhorar processos, adequar estratégias e obter melhores resultados. A participação de estruturas externas à escola, que não nego a importância, parece-me que se pode e deve orientar para campos que não a avaliação directa e individual dos professores. Não só por uma questão de custo mas pela funcionalidade em si. Já na avaliação das escolas teria interesse esse olhar externo. Já se experimentou há uns anos em alguns casos, mas não se deu continuidade, pois com a saída dos Rankings, acabou-se com essa experiência e com as estruturas que a faziam.
Quanto à Ordem de professores já dei a minha opinião no outro blog.

Pedro disse...

Caro Henrique, percebo a sua questão quanto ao custo inerente à realização de um processo rigoroso de avaliação do desempenho dos professores e das escolas. Mas, com o esbanjamento que há na área da Educação (veja-se o caso de centenas de professores que têm horário zero ou os que leccionam pouco mais de dez horas semanais devido à inexplicável redução da componente lectiva aplicada à idade) certamente que não faltariam recursos financeiros para levar a efeito uma séria avaliação do desempenho de professores e escolas se a dotação orçamental fosse bem aplicada...

henrique santos disse...

É verdade que na Educação há desperdícios mas ainda há falta de investimento em certos aspectos do sistema educativo. Eu aproveitaria os professores com horários zero ou reduzidos em outras necessidades do sistema, por exemplo, na questão do insucesso escolar que têm de ser encarado e atacado de forma diferente na sociedade portuguesa e no seu sistema educativo.
Este governo fala em Escola a tempo inteiro quando não se conseguiu criar em Portugal a Escola de turno único, que existe há muitos anos por essa Europa fora. Ainda existem, muitas escolas de dimensão não humana (acima de 500 alunos), com turmas enormes de 28 alunos, o que indicia que em Portugal ainda se poupa bastante na Educação.
Quanto à questão da avaliação dos professores, penso que nós avançámos com algumas pistas sobre o que achavamos desejável, tendo separado águas em torno de modelos diferentes de ver esta questão. Muito se poderia ainda debater. Caso deseje continuar, estou à disposição.

Pedro disse...

Caro Henrique, agradeço a sua disponibilidade para o debate. Há que continuar a debater pontos de vista (análogos ou não) para almejar à necessária melhoria do sistema educativo em Portugal.
Penso que tal debate poderá continuar no seu blogue e no meu outro blogue, se possível com outros intervenientes.
Abraço.

Anónimo disse...

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